sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sexta de música #30


Em 1992 a banda Engenheiros do Hawaii lançou seu 6º disco de estúdio, o Gessinger, Licks e Maltz (também conhecido com GLM, que são iniciais do sobrenome de cada um dos integrantes do grupo), que estourou nas rádio do país com o grande sucesso "Ninguém é igual a ninguém". 


Além dessa canção, o álbum também trazia "Parabólica", uma quase-poesia dedicada à Clara, filha de Humberto, o vocalista da banda, que tinha nascido naquele ano. A letra é muito boa e tem uns jogos de palavras que a deixam mais interessante, fazendo com que o ouvinte tente imaginar o que ela realmente significa:

"Ela para
e fica ali parada
olha-se para nada
(Paraná)
fica parecida
(paraguaia)
para raios em dia de sol
para mim.

Prenda minha parabólica
princesinha parabólica
o pecado mora ao lado
e o paraíso... paira no ar...
... pecados no paraíso...

Se a TV estiver fora do ar
quando passarem os melhores
momentos da sua vida
pela janela alguém estará
de olho em você
completamente paranóico 
prenda minha parabólica
princesinha clarabólica
paralelas que se cruzam
em Belém do Pará...

Longe, longe, longe (aqui do lado)
(paradoxo: nada nos separa)

Eu paro 
e fico aqui parado
olho-me para longe
a distância não separabólica"

Nos primeiros versos Humberto fala sobre a forma como as crianças pequenas ficam paradas, imersas em seu mundo, alheias ao que se passa ao seu redor, como que olhando para um nada, e usa o nome do estado do Paraná para reforçar a palavra parabólica, aplicando a técnica da aliteração, muito comum em poesia, que consiste em repetir a mesma sílaba ou palavra várias vezes numa mesma frase. Esse fenômeno acontece o tempo todo na música e dá a ela essa sonoridade poética tão agradável aos ouvidos. Já quando se refere ao para raio, ele provavelmente quis comparar a alegria que a filha lhe transmite com o reflexo de um raio de sol no metal que constitui o para raio.

Logo no início da segunda parte ele diz "prenda minha parabólica", o que não quer dizer que ele está mandando prender algo ou alguém; é apenas a forma carinhosa como os gaúchos tratam suas namoradas e esposas (prenda, como um presente, uma dádiva). E se o pecado mora ao lado, ou seja, está por todos os lugares, cercando o pai e lhe impondo provações o tempo todo, o paraíso paira no ar enquanto ele está com ela, ou quando está distante e se lembra da filha. Mesmo tomado pelo amor paternal, ele, como ser humano que é, comete alguns erros, ou "pecados" no paraíso.

No verso "Se a TV estiver fora do ar quando passarem os melhores momentos da sua vida, pela janela alguém estará de olho em você...", Humberto afirma para a filha que, mesmo estando longe em muitos momentos, alguns importantes para a vida dela, ele estará sempre ao seu lado, com o pensamento e o coração, e que ela pode confiar nisso. E mesmo que ele se ausente para sempre (ou seja, morra), alguém estará de olha em Clara, zelando por ela. Esse pensamento o deixa perturbado, e certamente incomoda todos os pais, por isso ele conclui com o verso "completamente paranóico".

Uma parte um tanto quanto polêmica, mas que é uma das mais bonitas da música e que só se pode entender conhecendo um pouco da estória de sua criação é "paralelas que se cruzam em Belém do Pará...". Aqui o músico não se referiu maldosamente ao estado, comparando-o com o fim do mundo ou algo do gênero; ele simplesmente inseriu na letra da música o lugar onde ele estava fazendo shows no momento do nascimento da filha, o que lhe impediu de estar presente no parto. E como paralelas não se cruzam, ele aproveitou a aliteração novamente e romantizou esse momento, "cruzando" ou "unido" para sempre a vida de pai e filha.

Em "Longe, longe, longe (aqui do lado), (paradoxo: nada nos separa)...", está clara a mensagem: mesmo estando longe, eles estarão sempre perto, apesar disso parecer um paradoxo.

E fechando a canção com chave de ouro, Humberto se põe no lugar em que começou a falar sobre a filha: parado, olhando para o nada, ou seja, refletindo, pensando, e sabendo que nem a distância os separa.


Outra observação interessante é que o próprio nome da música é carregado de significado: Humberto compara a filha com a antena, no sentido de que ela pode captar todas as coisas do mundo, e que a partir de seu nascimento ela concentraria toda o amor e atenção de seu pai.

Ao assistir o vídeo oficial da música, fica evidente, para quem ainda não sabia, que ela tem alguma coisa a ver com a criancinha que aparece em algumas cenas, que vocês podem conferir clicando aqui.  O vídeo abaixo não é o oficial, mas mostra a versão original de "Parabólica":


Já em 2007, quando Clara já era uma adolescente, o Engenheiros gravou o CD acústico "Novos Horizontes", do qual ela participou cantando justamente a canção que o pai lhe dedicou:


Bacana quando um artista dedica algo de seu trabalho ao filhos, não é mesmo? Isso não se limita a Humberto Gessinger e, na próxima semana, vou falar de outro músico que fez uma canção para um momento especial de um de seus filhos. Até ;)

7 comentários:

  1. Caramba, que letra linda!! Que linda análise!! Estou apaixonada por esta música. Grata por compartilhar esta preciosidade de análise musical e poética.

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  2. como fico feliz ao ler uma análise tão .. perfeita como essa!!! obrigado , obrigado por compartilhar seu entendimento sobre a letra poética.

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    1. Essa música é incrível por si só, não é mesmo? E depois que a gente entende um pouco mais o seu verdadeiro significado, ela fica ainda mais linda. Obrigada pela visita e pelo comentário carinhoso.

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  3. Foi uma das interpretações mais lindas que eu já li. Minha filha tá aqui olhando para o nada, difícil vai ser parar de chorar. Parabéns!

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  4. Bela música, inesquecível e muito marcante.
    Engenheiros do Hawaii é uma banda que eu curto muito.
    Sinto saudades dessa época maravilhosa que foi o início dos anos 1990. Tempo bom que não volta mais

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  5. Bom mesmo é nascer/crescer ouvindo essa música, por ter uma família de fãs do mestre Humberto, e pela feliz coincidência de se chamar Clara!!!!

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